11.9.09

Educação avançada.

Tudo em vão. 3 anos de estudos no lixo. Vergonha. Ana olhou para os lados , quase como se esperasse ver o gabarito flutuando em alguma parte daquela sala lotada e iluminada demais. Mas ao invés disso, ela viu algo ainda mais bizarro. Digo 'algo', porque ela não sabia se poderia definir como homem ou mulher, muito menos como pessoa. Era uma coisa toda de preto; mal se via a pele. Era magra e fina, com um rosto quase felino. Um olhar desafiador que fitava fixamente o rosto de Ana.
Como assim? Simplesmente, ninguém mais naquele lugar parecia ter visto a coisa. Os ficais não a notaram, com certeza, porque ela nem sequer estava se preocupando em ser discreta, poderia facilmente estar colando. Mas não; somente Ana a via.
Deveria ser um delírio, pensou. Um momento de loucura devido à pressão sofrida no vestibular. Ai meu Deus, isso a lembrou da prova. Aquele pedaço de papel em branco que decidiria sua vida.
- Está difícil.
A voz da coisa ecoou sinistramente, parecendo muito mais alta do que os ruídos de lápis escrevendo e movimentos nervosos. Ana tinha confiança de responder; ela sabia, não me pergunte como, que ninguém ouviria novamente. Era como um mundo paralelo.
- Sim.
- Escolha um.
- O que?
- Escolha um candidato. Faremos uma troca.
- Um candidato pelo o que?
- Pelo conceito máximo nesta prova. E em todas as outras que você venha a fazer. Estou lhe oferecendo o seu futuro.
- O que você fará com o cara que eu escolher?... Quem, afinal, é você?
- Apenas estou lhe dando uma oportunidade única. Todas essas pessoas estão concorrendo com você. Bem, eles são seus agora. Dê-me um.

Só de pensar naquela possibilidade já fazia Ana se sentir doentia. Seja lá o que aquilo significava, era malígno. Dava para sentir. Mas ao mesmo tempo, imagine como a vida de Ana seria como num conto de fadas, onde a família se orgulharia dela todos os dias, e os amigos sentiriam inveja de como ela é brilhante e sortuda. Era o que ela queria. E estava bem ao alcance de suas mãos.
- Aquele ali.
Ela escolheu um com cara de idiota. Seja lá o que fosse acontecer com ele, seria melhor do que lidar com a faculdade de quinte a qual ele estaria condenado. Qual é, dava para perceber que ele não ia passar. Ela estava até lhe fazendo um favor.
A coisa sorriu, uma coisa de gelar a espinha e desapareceu, junto com o esquisito que Ana acabara de condenar. Um pânico começou a tomar conta de sua mente. Aquilo realmente havia acontecido. Ela olhou para os lados, novamente, agora procurando o cara de idiota, quando percebeu que a prova estava completamente feita, e o cartão resposta marcado.
Uma onda de confiança substituiu o medo e ela levantou, caminhou até o fiscal e lhe entregou o cartão resposta. Seja lá o que tivesse acontecido, agora era passado.
Ana saía do prédio dizendo coisas como "Eles farias o mesmo por você" e "Estamos numa selva, temos que cuidar do próprio nariz", para se convencer que não havia feito nada de monstruoso, mas a verdade era que havia um sorriso de satisfação no seu rosto.
Ela sabia, que naquela noite deitaria a cabeça no travesseiro, com a consciência limpa como a de um anjo. Conseguira o que sempre quis e merecia. Ela merecia, sim. Bastava fechar os olhos e não pensar no cara-de-idiota. Valeu a pena.

6 comentários:

  1. aah, adorei *-* me lembrou uma cena de arraste-me para o inferno, quando a mulher tem que escolher uma pessoa pra passar a maldição.
    eu não sei se faria isso. possivelmente não. você faria? ;;

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  2. Big Middle Brother2:00:00 PM

    E o que aconteceu com o maluco com cara de idiota?
    Agora fiquei curioso!

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  3. concordo com o coment. quero um Parte II desse post *-*

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  4. Fato que adorei... Pena que é a Ana e não o Marcos !!! kkkkkkkk...
    Se fosse comigo eu tinha escolido o cara de nerd. Bem, se eu for pensar que nem maluco a resposta para a pergunta do nosso amiginho acima é mole. Eles eram meramente ilusões eles nunca existiram foi uma neurose da coitada da Ana no final da prova. Louco não ???

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  5. Big Middle Brother5:34:00 PM

    Tinha um tal de "CHATACK" (acho que é assim), que um dia me chamou de "idiota" e disse algo como: "Esse cara acha que sabe tudo. Quem é ele?" ou algo como "QUem é você? Não sabe o que diz"...
    Bom, queria que ele lê-se isso. Sobre literatura eu entendo, SUA MULA, eu sou formado em LETRAS, SEU ANIMAL! Vou te caçar até o dia em que vir um comentário seu!

    Agora sim estou com a minha alma lavada!
    :D

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  6. Gostei muito! Incrível como você conseguiu descrever quase que exatamente o que eu senti no último vestibular que prestei. Me lembro como se fosse hoje. E no final das contas eu também não escolhi ninguém.

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