15.7.11

Problemas

Dividir. Aprendi uma coisa sobre dividir o que é importante para você: tenha cuidado. Quando se divide, é compartilhado mais do que só o gosto por uma música, uma banda especial, uma poesia, um fato, uma mania, um dia chuvoso e nublado, momentos especiais que só você entende a magia, sonhos, pesadelos, desabafos: quando se divide você doa parte da sua memória.
Minha lembrança, que era feita de particularidades minhas. O que me deixava feliz, eu confiei a você. Contei meus segredos, minha intimidade. Revelei meu 'eu' a ti, sem pensar nas consequências.

E quando a pessoa com quem você dividiu te magoa, simplesmente tudo aquilo que significa tanto para você, te traz paz, é transformado em tortura. Hoje eu ouvi The Beatles, porque era a única saída, você nunca gostou muito deles. É só o que resta de mim que não me lembra você. É como uma faca de dois gumes; olho para o céu, hoje está chuvoso, tento sentir de novo a alegria que eu sentia antes. Mas só o que me vem é dor. Dor porque eu preferia que o céu de hoje fosse nosso, e dor, mais ainda, pois sei que ele nunca mais será só meu.

Ao perder você, perdi junto More Than Words, perdi as panquecas, perdi a chuva, perdi a cor azul, perdi Laranja Mecânica, perdi meu anel 13, perdi gatos pretos, perdi minha conexão comigo. Ao quebrar meu coração, você condenou minha memória a ter que se esquecer. Para esquecer você preciso esquecer quem eu era com você, quem eu deixei que você visse, tocasse, amasse.

Quando se divide, se sacrifica, se aposta. Eu fui cega em achar que podia depositar em você todos os meus detalhes, esperando os seus em troca. Espero agora, em vão, que minha dor te comova, que meu silêncio te aproxime. Sinto solidão em você, sinto solidão em mim. Sinto que não tenho para onde fugir, porque todos os meus abrigos têm o seu cheiro, a sua foto, a sua lembrança.

Esse é o problema, o grande problema, de quem ama, de quem se expõe, de quem se permite. Abre-se a porta não só para beijos e carinhos, mas também para um enorme desejo de sofrer uma lobotomia geral. Cabe a mim, eu sei, construir um outro 'eu' que possa conviver com sua memória latente. Arquitetar um novo mundo onde você não seja mais bem vindo. Achar um novo coração, livre, livre de quem éramos.

4 comentários:

  1. Anônimo12:03:00 PM

    Realmente nossa força em conectar pessoas a situações/musicas/cheiros e sabores é grande. Essa ligação nós nunca perdemos. Os lugares estarão lá, os sabores esperarão uma nova visita, a melodia não irá se alterar com o tempo mas você, você certamente irá mudar e isso basta. Como um livro lido em diferentes momentos da vida, assim ficam as memórias, ganham uma nova roupagem. E se entregar é a arma dos fortes, pois quem se resguarda não sabe o que perde...

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  2. Olá querida! tem um desafio pra vc lá no meu blog!beijooooo!

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  3. Anônimo8:22:00 PM

    Já fiquei desesperada com essas memórias inquietantes, mas o tempo passa,novos filmes e lugares virão, basta não se afobar, pois toda a memória se recicla...

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  4. Lindo texto como de costume.
    Nossa, eu também perdi More Than Words, e olha que nem foi pra uma história tão importante assim!
    Já tinha me dado conta dessa ligação que a gente faz meio inconsciente entre músicas, poesias, memórias em geral e o nome por trás do nosso sorriso bobo. Dói, dói pra caramba. A gente pensa que jogou nosso tempo fora, que deu sentimento a quem não soube cuidar, mas quer saber? Não foi tão ruim quanto a gente pensa que é quando termina. E já que eu adoro um clichê, acredite: o tempo vai te devolver a sua conexão com você. Só ele, Tabi. Só o tempo.

    Saudades, viu?

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